Para esclarecer o cenário, o Jornal de Juatuba e Mateus Leme conversou com o biólogo e presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Paraopeba, Heleno Maia. Ele explicou como tem sido o monitoramento, quais são as causas prováveis do novo episódio e o que pode ser feito para evitar que tragédias semelhantes se repitam.
De acordo com o especialista, o rio é monitorado diariamente, o que inclui análises da qualidade da água e observação de espécies aquáticas.
Segundo o presidente do Comitê da Bacia, em períodos de estiagem, a movimentação no leito do rio pode causar a morte de peixes. Quando chove muito após um longo período de seca, o leito é remexido, liberando contaminantes como metais pesados e matéria orgânica. Esse processo reduz o oxigênio na água, e sem oxigênio os peixes não conseguem sobreviver”, explicou.
Mas a situação registrada chama atenção porque até espécies bastante resistentes como surubins, cascudos e piranhas, também não resistiram. Com isso, o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Paraopeba não descarta a hipótese de lançamento de contaminantes. “Ainda não sabemos se houve a presença de uma substância química em níveis elevados, mas a morte de espécies altamente resistentes, como surubins, cascudos e piranhas, reforça essa suspeita. Normalmente, esses peixes conseguem sobreviver à poluição já existente no rio, que inclui metais pesados e esgoto doméstico, mas agora até eles foram atingidos”, destacou. Ele ressaltou ainda que apenas os laudos técnicos, que devem sair em até 15 dias, poderão confirmar a causa exata.
O problema atinge inclusive espécies ameaçadas de extinção, como o pacamã — encontrado apenas nas bacias do São Francisco e do Rio Doce, ambas já marcadas por desastres de barragens. “Encontramos pacamãs mortos em todos os tamanhos. É uma perda muito triste e preocupante”, lamentou.
O biólogo também reforçou que a população evite o consumo de peixes na região. Mesmo com a proibição da pesca em grande parte do Paraopeba, há relatos de que pescadores ainda capturam peixes para consumo. O presidente do Comitê fez um alerta enfático: “Pedimos que ninguém consuma os peixes do rio, principalmente agora. Sem os laudos, não sabemos quais substâncias químicas estão no organismo desses animais, e isso pode trazer riscos sérios à saúde humana”, explicou.
Segundo o especialista, a principal medida para evitar novas mortandades é a implementação integral do Plano Diretor da Bacia do Paraopeba, construído com participação de técnicos e representantes da sociedade.
“O plano traz diretrizes claras para garantir a recuperação e a qualidade do rio. Mas é preciso que prefeitos, órgãos de justiça e instituições assumam suas responsabilidades. Só com ações integradas vamos devolver saúde ao Paraopeba”, destacou.
O fantasma de Brumadinho
Seis anos após o rompimento da barragem em Brumadinho, Heleno Maia afirma que os metais pesados continuam presentes e esse é hoje o maior desafio. “Defendemos a dragagem do rio, para retirar o material acumulado. Só assim será possível reduzir o impacto permanente desses rejeitos”, afirmou o biólogo. Ele conta que tem levado o tema a audiências públicas.
“Estou indo para Brasília na segunda-feira para lutar, junto à audiência pública que o Comitê do Paraopeba conseguiu junto à Comissão de Minas e Energia da Câmara Federal, para debater essa questão e exigir a dragagem dos 400 quilômetros do Rio Paraopeba que foram contaminados”, explicou.
O processo de dragagem consiste em uma limpeza e aprofundamento do leito de rios, realizado com equipamentos especiais que funcionam como aspiradores. A medida é necessária para retirar todo o sedimento depositado no fundo do rio. No caso do Rio Paraopeba, ela é essencial para retirar os rejeitos de mineração, que inclui os metais pesados depositados no fundo após o rompimento da barragem em Brumadinho. “Só assim conseguiremos diminuir o índice de metal pesado no leito do Rio Paraopeba”, destacou.
Apesar dos impactos e da degradação, o especialista reforça que o Paraopeba continua vivo. “O rio é guerreiro. Já sofreu muito, mas resiste. Ele mostra sua força na piracema, quando os peixes sobem para se reproduzir e renovar as espécies. Não podemos aceitar a ideia de que o Paraopeba está morto. Ele vive, mesmo machucado”, defendeu.





