“Mães que buscam”: especialistas explicam como será o acolhimento às famílias de desaparecidos

0
215

A dor da espera e a angústia do silêncio uniram voluntários em Mateus Leme que pretendem acolher famílias que convivem com o desaparecimento de entes queridos. O projeto “Mães que Buscam” foi idealizado pela ex-secretária de Assistência Social, Simone Macieira, que também vive essa realidade há três meses sem notícias do filho Alex.

Prevista para ser inaugurada ainda em abril, a iniciativa já reúne 64 voluntários. O objetivo é oferecer acolhimento, orientação e apoio emocional a mães e familiares que estão há dias, meses e até anos sem respostas.

Entre os voluntários, duas histórias ajudam a traduzir o espírito do projeto. A psicóloga Fabiana Marinho, que atua na Prefeitura de Mateus Leme, destaca que sua participação está diretamente ligada ao compromisso com a saúde mental e o cuidado humanizado.

Com experiência em áreas como psicologia hospitalar, psico-oncologia e terapia cognitivo-comportamental, Fabiana acredita que o projeto cumpre um papel essencial ao oferecer escuta qualificada. “Nosso objetivo é criar um espaço acolhedor, onde essas mães se sintam seguras para falar, sejam verdadeiramente ouvidas e encontrem caminhos possíveis para transformar o medo em ação, sempre respeitando seus limites”, explica.

Ela ressalta que, em muitos casos, o sofrimento dessas famílias é agravado pela falta de respostas e pela ausência de apoio contínuo. Por isso, o atendimento psicológico dentro do projeto será fundamental para ajudar a lidar com a ansiedade, a angústia e o sentimento de impotência.

Outra voluntária que integra a iniciativa é Etheeny Souza, acadêmica de Serviço Social, que vê no projeto uma missão que vai além do voluntariado. Para ela, o trabalho envolve sensibilidade, responsabilidade e presença real na vida dessas mães.

“Não será apenas um trabalho, será uma missão de acolher dor, escutar histórias e oferecer um pouco de esperança em meio a tanto sofrimento”, afirma. Segundo Etheeny, o primeiro passo será sempre a escuta. “Quando uma mãe chegar até nós, ela não vai trazer só uma história, mas um coração machucado. E o mais importante é mostrar que ela não está sozinha”, destaca.

Ela explica que o papel dos voluntários será orientar, encaminhar e, principalmente, estar presente. “Às vezes, tudo que essa mãe precisa é ser ouvida sem julgamentos. O que oferecemos é humanidade. É um abraço em forma de escuta”, completa.

Entre os integrantes estão 13 pedagogos e professores, oito advogados, cinco psicólogos, além de microempresários, profissionais da saúde, assistência social, comunicação e outros segmentos.

A sede do projeto já está estruturada e contará com telefone disponível, equipe de recepção organizada em parceria com o clube Estrela Mirim e uma listagem inicial de pessoas desaparecidas, o que deve facilitar o acolhimento e o encaminhamento dos casos. A proposta é que o espaço funcione como um ponto de apoio para famílias que, muitas vezes, não encontram suporte institucional adequado.

A grande adesão de voluntários reflete também uma realidade que tem preocupado moradores de Mateus Leme e região. Casos de desaparecimento, muitas vezes ligados a contextos de vulnerabilidade, violência ou possível envolvimento com o tráfico de drogas, têm se tornado frequentes. Famílias relatam dificuldades no avanço das investigações e falta de informações por parte das autoridades.

Investigações não avançam

A criação do projeto está diretamente ligada à história de Simone Macieira, que há cerca de três meses vive o desaparecimento do filho, Alex, que era dependente químico.  Ele foi visto pela última vez no dia 24 de dezembro e, segundo relatos, poderia ter sido vítima de execução no bairro Bom Jesus, supostamente devido a uma dívida com tráfico na região. No entanto, até o momento, não há confirmação e nem avanços concretos nas investigações.

Segundo Simone, a apuração do caso segue sem resultados. “Infelizmente não conseguem avançar em nada.  Chamaram algumas pessoas para serem ouvidas, mas não me passaram nenhuma informação e disseram que não tem novidade nenhuma”, relatou perplexa com a falta de eficiência da polícia local.