Artista mateus-lemense eterniza a memória urbana da cidade em livro de aquarelas

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Mateus Leme passa por mudanças constantes. Ruas são transformadas, casas antigas dão lugar a novas construções e referências afetivas se embaralham no ritmo do crescimento urbano. Em meio a esse cenário, um trabalho silencioso, sensível e persistente tem ganhado forma: o projeto Aquarelas de Mateus Leme. A proposta resgata parte da história do município por meio da arte. Com mais de 250 desenhos já produzidos, o artista plástico Paulo Henrique Mileib, responsável pela série tem se dedicado a reconstruir visualmente casas, comércios e cenários que desapareceram ou foram profundamente modificados ao longo dos anos.

O objetivo, segundo o artista, vai além da arte: “o projeto atua como uma ferramenta de urbanismo afetivo e memória coletiva”, diz Paulo Henrique. Pela aquarela, técnica que permite delicadeza, transparência e certa liberdade criativa, ele reconstrói o que já não está mais diante dos olhos, mas permanece vivo no imaginário de quem cresceu, viveu ou habita Mateus Leme. E essa reconstrução não é feita a partir de impressões vagas. Segundo o artista, há pesquisa, método, entrevistas e um esforço genuíno de reconstituir a cidade de outra época com o máximo de fidelidade possível.

A iniciativa começou quase por acaso, quando o artista passou a acompanhar o grupo “Fotos Antigas de Mateus Leme”, mantido pela página Mateus Leme Recordações, no Facebook. Entre um registro e outro, percebeu que ali havia um acervo poderoso. O perfil publicava imagens de ruas, bares, casas tradicionais e cenas do cotidiano que, juntas, contavam parte da história urbana da cidade. A primeira aquarela foi do antigo bar do Maurício Krika, onde hoje funciona o bar do Marcinho. O resultado chamou atenção, e o artista decidiu ampliar a pesquisa.

Desenhou tudo o que encontrou no acervo, depois procurou moradores e familiares em busca de novas imagens. Recorreu também ao Google Maps, usando a função street view para localizar locais que foram demolidos recentemente. Em muitos casos, são nesses arquivos digitais que encontra pistas para reconstruir fachadas, volumes ou proporções. Em paralelo, fotografa ele mesmo os cenários atuais para compor comparativos entre “antes e depois”, que se tornaram parte importante do projeto.

Dessa forma, os acervos comunitários, relatos de moradores e ferramentas digitais permitem que as aquarelas tenham rigor documental, ao mesmo tempo em que preservam um caráter poético. A intenção, segundo o autor, é simples e profunda. “É trazer boas recordações a quem conheceu a cidade antigamente e levar cultura e informação às gerações que virão”, compartilha.

O processo criativo

Reconstituir visualmente uma casa antiga não é tarefa trivial, especialmente quando o único registro disponível é uma fotografia em preto e branco. Para escolher as cores, o artista recorre a um aplicativo de coloração digital, o Colorize Images. Ele sabe que o resultado pode não reproduzir exatamente as cores originais, mas considera o recurso um ponto de partida. A partir dessas sugestões, compõe as paletas, sem abrir mão da liberdade que a aquarela permite. “A aquarela te permite fugir do realismo”, explica. “Não exige traços e cores absolutamente fiéis.”

Essa combinação de rigor e interpretação aparece também no método de pesquisa histórica. O artista busca informações sobre o ano de construção, a data de demolição e os proprietários originais de cada residência. Em suas visitas às casas, encontra moradores que se mostram receptivos, compartilham memórias pessoais e ajudam, com seus relatos, a completar lacunas deixadas pelas imagens.

Nem sempre é simples. Algumas famílias hesitam em revisitar histórias, ou preferem não relembrar determinadas fases. Ainda assim, o artista segue pacientemente, porque sabe que cada pedaço de informação é valioso para reconstruir a cidade de maneira sensível e responsável.

Entre as mais de 250 aquarelas já produzidas, duas ocupam um lugar especial no coração do artista: novamente, o bar do Maurício Krika, seu primeiro trabalho e, a casa da família Veneroso, em Azurita, próxima à linha férrea. Para ele, ambas são símbolos da cidade que conheceu na infância. São, inclusive, as ilustrações que pretende usar como capa do livro.

Mas nem tudo segue a fluidez da aquarela. Segundo Paulo, o desafio maior é manter o ritmo criativo, o rigor da pesquisa e a responsabilidade emocional que acompanha cada pintura. “Todos tiveram o mesmo nível de dificuldade”, resume. Mas cada imagem carrega uma história”, diz.

O nascimento do livro

Com o acervo já consolidado, o artista decidiu reunir o material em um livro. Agora, ele lida com estruturação de capítulos, prefácio, índice e referências. Tudo tem sido feito por ele mesmo, sem equipe editorial. Mais adiante, pretende buscar ajuda profissional para finalizar o trabalho com qualidade, incluindo revisão e diagramação.

A etapa mais desafiadora, no entanto, está fora das páginas: o custo de impressão. Para viabilizar o lançamento, o artista considera alternativas como financiamento coletivo, parcerias e até anúncios locais que possam ajudar a custear a produção. O objetivo é simples: fazer com que o livro exista, circule e chegue às mãos da comunidade.

Ao ser questionado sobre o impacto que espera gerar, ele espera que as novas gerações conheçam a cidade que não viram e que os moradores mais antigos revivam suas lembranças. A experiência das exposições que já realizou confirma isso. “A curiosidade no olhar de cada um é algo inigualável”, relata.

Além do livro, ele continua participando de exposições e já integrou o projeto “A Cidade Conversa”, em 2023.

A trajetória de Paulo Henrique Mileib

A história por trás das aquarelas começa muito antes do projeto. O artista, de 37 anos, iniciou sua jornada aos oito, incentivado pela professora Cleide, que enxergou nele um talento promissor. Começou com lápis de cor, desenhando personagens de animes e desenhos infantis. Ao longo dos anos, estudou diferentes técnicas: tinta a óleo, acrílica, giz pastel seco e oleoso, e, mais recentemente, voltou ao lápis de cor com foco em realismo, tendo como referência os ensinamentos da professora Sheila Giovanni. “As dicas dela foram fundamentais”, reconhece.

Embora a aquarela tenha ganhado projeção com o projeto atual, Paulo destaca que sua principal especialidade é o realismo com lápis de cor, técnica na qual já realizou três cursos.

Nascido em Itaúna e criado no centro de Mateus Leme, Paulo Henrique mora na cidade até hoje. Além da arte, ele atua há 13 anos como servidor da Copasa.