Grupo de apoio para mães de vítimas do tráfico desaparecidas será lançado em março em Mateus Leme

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Simone Macieira acorda todos os dias com a mesma pergunta atravessada no peito: onde está meu filho? Há mais de um mês, ela não tem notícias de Alex, que era usuário de drogas e desapareceu em Mateus Leme. A suspeita que ronda a família é difícil até de dizer em voz alta: Simone acredita que ele pode ter sido exterminado pelo tráfico. “Eu não tive notícia nenhuma ainda. Não temos mais esperança de que ele esteja vivo. Estamos à procura realmente do corpo do Alex”, desabafa.

A dor de não saber, a ausência sem explicação e a sensação de caminhar sozinha em meio a um labirinto de buscas, informações desencontradas e respostas lentas fizeram com que ela chegasse a um ponto decisivo. Em vez de se calar, ela resolveu transformar o sofrimento em uma rede de apoio.

Foi assim que nasceu a ideia do grupo “Mães que Buscam”, criado para apoiar outras mulheres que vivem a mesma angústia: a de ter um filho desaparecido em meio ao avanço do tráfico e da violência. “O que me levou a criar esse grupo foi as dificuldades enfrentadas”, conta Simone. “Hoje a população vê muito o solidário, mas o solidário para o outro resolver. E essa é uma questão social ampla, pois todos temos coparticipação, mas ninguém quer assumir”, reflete.

Ex-Secretária Municipal de Assistência Social do município, Simone Macieira acompanhou de perto e escalada de violência e a vulnerabilidade de famílias diante do crescimento do tráfico de drogas. Mas, segundo ela, nada se compara com o que se tornou hoje. A cada semana, crianças cada vez mais novas estão sendo engolidas pelo tráfico. “Muitas com 9, 10 anos de idade são cooptadas como aviãozinho no tráfico, seduzidas pelo mundo do crime”, diz. O ingresso como usuários, também está começando cada vez mais cedo, principalmente, nas famílias mais vulneráveis. E com isso, seja por dívidas ou disputas de facções, milhares de jovens perdem as vidas todos os anos no Brasil.

Assim como ela, Simone percebeu que muitas mães enfrentam o desaparecimento dos filhos sem apoio, sem orientação e sem saber por onde começar. E foi no contato com outras mulheres na mesma situação que ela entendeu que não bastava buscar apenas Alex. Era preciso criar um espaço para todas.

“Mães que buscam: um grupo para quem vive a mesma dor

O nome escolhido é simples e direto: Mães que buscam. “Várias pessoas me perguntaram: mas por que ‘mães que buscam’?”, diz Simone. “É bem claro. Mães que buscam justiça, buscam resposta, buscam solidariedade, buscam respeito e buscam principalmente seus direitos”, destaca.

Segundo ela, o grupo nasce como uma rede de suporte para acolher mães que vivem o desaparecimento de filhos ligados ao tráfico, seja como usuários – como é o caso do filho dela, Alex – ou jovens envolvidos de alguma forma com o crime.

 “Nós queremos somente respostas. Nós queremos ajudar essas mães a encontrarem um caminho, a terem um amparo legal, um apoio, um momento que elas se sintam seguras”, afirma.

Ela sabe que a caminhada não será fácil. “Vai ser uma tarefa árdua, vou me deparar com autoridades, políticos, com a própria máfia que causa medo”, admite. Mesmo assim, insiste que o objetivo é proteção e dignidade. “A coisa mais importante é a vida e ninguém tem o direito de tirar a vida do outro”, diz.

Segundo Simone, a comunidade também pode contribuir. “Pessoas que souberem de alguma coisa, liguem no telefone 181, que é uma denúncia anônima”, orienta.

Estrutura

O projeto ainda está em fase inicial, mas já começa a ganhar forma. Simone afirma que o grupo contará com um local fixo para encontros, que está sendo confirmado, além de um espaço particular que será cedido por ela para orientações e outros serviços de apoio.  “Serão reuniões sérias, com agendamento, para que se torne um projeto bem embasado, com solidez”, explica.

O grupo pretende oferecer acompanhamento jurídico, suporte psicológico, orientação de assistentes sociais e acolhimento feito também por voluntários preparados para escutar e orientar. Ainda em fase embrionária, ela diz que se surpreendeu com a quantidade de pessoas que já se colocaram à disposição. “Me espantou o número de adesões, advogados, assistentes sociais, psicólogas e outras pessoas que passaram por isso e querem ajudar”, revela.

Segundo Simone, o grupo vem ampliar o trabalho de assistência que é feito pelo poder público. “A assistência social faz um trabalho ímpar e viremos para somar”, destaca.

Além do apoio às mães, o projeto pretende atuar na prevenção, especialmente dentro das escolas. A ideia é levar palestras e histórias reais para adolescentes e pré-adolescentes, antes que o tráfico os alcance. “O objetivo é compartilhar suas experiências de como viveram e venceram o vício ou saíram desse ambiente”, diz. “É fácil de entrar no mundo das drogas, mas é difícil a saída”, diz Simone.

Ela quer usar exemplos reais, como o de Alex, e trazer especialistas para falar com professores e estudantes. Simone também acredita que ações sociais podem aproveitar momentos em que famílias já estão reunidas, como encontros ligados ao Bolsa Família, para ampliar o alcance das orientações.

O grupo está previsto para ser lançamento oficialmente no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Para ela e as outras mães, não será apenas o início de uma associação, mas um gesto coletivo de mulheres que se recusam a aceitar o silêncio como resposta. Porque, para Simone, enquanto houver uma mãe sem notícias do filho, a busca continua. “E agora, não estaremos mais sozinhas”, diz.