No dia 25 de março, nasce em Mateus Leme uma nova rede de apoio formada por mulheres que transformaram a dor em atitude. O grupo voluntário “Mães que Buscam” será lançado oficialmente com a missão de acolher, orientar e caminhar ao lado de familiares que enfrentam momentos difíceis, especialmente quando vivem o drama do desaparecimento de um filho ou ente querido.
O encontro de lançamento acontecerá na sede do grupo, na Rua Maria das Dores Aguiar, nº 15, no Bairro Nossa Senhora do Rosário. O espaço foi estruturado por meio de uma parceria com o projeto social Mirim Esporte Clube e está preparado para receber mães que precisem de escuta, apoio e encaminhamento adequado.
A criação do grupo nasce da necessidade de garantir justiça, solidariedade, respeito, acolhimento e, principalmente, o direito da mãe e familiares enquanto cidadãos. Segundo a idealizadora, Simone Macieira, muitas mulheres não recebem atendimento digno ao procurar ajuda em órgãos públicos. “As pessoas estão gritando por auxílio. Falta só alguém puxar para deslanchar”, afirma.
Um dos principais objetivos do grupo é acompanhar mães em momentos delicados, como no registro de um desaparecimento. A proposta é que voluntárias da área técnica ou jurídica acompanhem essas mulheres até a Delegacia Civil, garantindo que sejam tratadas com respeito e dignidade desde o primeiro atendimento.
O movimento já conquistou apoio da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e de diversos parceiros locais. Atualmente, mais de 60 voluntários integram a iniciativa. Entre eles estão advogados, psicólogos, pedagogos, psicopedagogos, assistentes sociais, psiquiatras, professores, profissionais de clínicas de saúde, representantes de mídias locais e regionais, além de uma agência de marketing.
A sede já está estruturada, com telefone disponível e equipe de recepção formada por meio da parceria com o clube Estrela Mirim. Simone destaca que a adesão foi surpreendente. “Todas as pessoas que eu liguei aderiram à causa. Isso mostra o quanto essa rede de apoio era necessária.”
Relembre o caso
A ex-secretária de Assistência Social de Mateus Leme, Simone Macieira, idealizadora do grupo, decidiu organizar o movimento a partir da sua dor pessoal, quando perdeu notícias do filho desde 24 de dezembro do ano passado. A partir das dificuldades em obter informações e da falta de acolhimento que enfrentou, ela transformou o sofrimento em mobilização.
No dia 24 de dezembro, Alex foi visto pela última vez. Depois disso, desapareceu. Por ser conhecido em vários bairros da cidade, começaram a surgir informações desencontradas: relatos de que estaria perambulando pelas ruas, de que teria se envolvido em uma briga violenta e até de que teria sido ferido. Nada foi confirmado oficialmente.
Simone iniciou uma busca incansável. Procurou hospitais, registrou boletim de ocorrência, conversou com conhecidos e chegou a buscar informações em locais considerados perigosos. “A gente acaba indo até bocas de fumo, pedindo informação a traficantes. A família inteira corre risco”, relatou.
Com o passar dos dias, ela recebeu a informação de que Alex poderia ter sido executado pelo tráfico no Bairro Bom Jesus.
Eu só quero poder enterrar o corpo do meu filho”
No dia 24 de fevereiro, completaram-se dois meses do desaparecimento de Alex. Para a Simone Macieira, as evidências apontam para uma possível execução, mas até agora não houve nenhuma confirmação oficial ou resposta concreta das autoridades.
Segundo ela, diversas reuniões com autoridades já foram realizadas. Simone afirma que foi informada de que o caso segue sob sigilo e que as investigações estão em andamento, mas ressalta que, até o momento, nada foi apresentado de forma clara à família. “Eu só quero poder enterrar o corpo do meu filho”, desabafa.
A angústia aumenta diante do silêncio e do medo que, segundo Simone, tomou conta da cidade. Em um município de cerca de 40 mil habitantes, ela questiona como informações não avançam, mesmo diante de tantos comentários e indícios. Para ela, o receio de represálias faz com que muitas pessoas evitem falar.
Simone também aponta que o problema não é apenas estrutural, mas está ligado à morosidade e ao clima de pânico. “Hoje o medo fala mais alto. As pessoas se sentem reféns”, afirma, ao cobrar mais agilidade e respostas efetivas no caso.






