Há dias em que o tempo parece suspenso para Simone Macieira. Desde 24 de dezembro, a vida passou a ser medida em horas de espera, telefonemas anônimos, mensagens desencontradas e uma angústia permanente que não permite descanso. O filho, Alex Macieira, desapareceu às vésperas do Natal. Desde então, a família vive um luto inconcluso, marcado pela ausência de respostas e pela cruel incerteza de não saber se ele está vivo ou morto.
Nascido e criado em Mateus Leme, Alex Macieira tinha 34 anos e vinha de uma família tradicional do município. “Nossa família é toda de origem mateus-lemense”, conta Simone. “O Alex foi um filho muito bem educado, uma pessoa muito humana, muito solidária, que infelizmente se envolveu com as drogas aos 14 anos de idade.”
A história de Alex é, ao mesmo tempo, singular e comum a milhares de famílias brasileiras. Adolescente, começou a usar maconha de forma aparentemente casual. “Ele começou ingenuamente, como muitos jovens começam. Infelizmente, a maconha foi a porta de entrada”, relata a mãe. Com o tempo, o uso evoluiu para drogas mais pesadas, e a dependência passou a dominar sua vida. Ao longo de 24 anos, Alex foi internado 19 vezes em clínicas de recuperação. Cada internação reacendia a esperança de mudança. Cada recaída trazia de volta a frustração e a dor.
“Cada vez que ele internava, a gente criava uma expectativa de recuperação. Mas as recaídas eram constantes, a droga falava mais alto”, diz Simone. Ela também denuncia a precariedade de parte das clínicas de reabilitação. “São clínicas despreparadas, sem funcionários suficientes, e nem todas as famílias têm condições financeiras para bancar. É um paliativo. A dependência química é uma doença.”
Apesar da luta contra o vício, Alex mantinha traços que a mãe faz questão de preservar na memória. Sonhador, solidário, muito ligado à família, era apaixonado pelo avô e pelos cavalos. “A memória que eu guardo com carinho é dele nas cavalgadas com meu pai, Geraldim Leiteiro, que foi percursor das cavalgadas aqui na região”, lembra. Alex também era pai de gêmeos, uma paternidade que, segundo Simone, ele não conseguiu vivenciar plenamente. “A droga foi mais forte. Ele não compartilhou essa vivência com os filhos”, lamenta.
Pouco antes do desaparecimento, havia sinais de recomeço. Alex saiu de uma clínica por vontade própria e conseguiu um emprego. Trabalhou cerca de 30 dias e parecia determinado a mudar de vida. “Ele queria muito largar o vício, estava trabalhando, fazendo planos para criar os filhos”, afirma a mãe. A recaída, no entanto, veio de forma silenciosa. “A pessoa não dá sinal de alerta. Basta ter dinheiro e retomar as amizades antigas.”
O desaparecimento
No dia 24 de dezembro, Alex foi visto pela última vez. Depois disso, sumiu. Como ele era conhecido em vários bairros, informações começaram a chegar de forma fragmentada: relatos de que estava perambulando, de que teria se envolvido em uma briga violenta, de que teria sido ferido. Nenhuma confirmação. Simone iniciou uma busca incansável. Foi a hospitais, registrou boletim de ocorrência, procurou conhecidos e desconhecidos. “A gente acaba indo até a bocas de fumo, pedindo informação a traficantes. A família inteira corre risco”, relata.
Com o passar dos dias, surgiram boatos ainda mais graves, inclusive de que Alex teria sido executado pelo tráfico, no Bairro Bom Jesus. “Como não houve nenhuma entrada em hospital, alertamos sobre a possibilidade do possível extermínio dele”, diz Simone. Desde então, a família está em estado de alerta e angústia.
As dificuldades enfrentadas por Simone vão além da dor pessoal. Ela critica a falta de estrutura do Estado e a sensação de impotência diante do crime organizado. “Hoje a gente vive num país sem lei, comandado pelo tráfico. As autoridades estão à mercê disso”, afirma. Segundo ela, há carência de profissionais, efetivo reduzido e despreparado, o que compromete a agilidade e a profundidade das investigações.
Mateus Leme, assim como outras cidades do interior mineiro, aparece nesse contexto como rota do tráfico de drogas, um fenômeno que agrava a violência e o número de desaparecimentos. Simone, que foi Secretária de Assistência Social em Mateus Leme e acompanhou de perto centenas de dramas semelhantes, destaca que o caso do filho não é isolado. “Na cidade são vários casos, alguns há muito mais tempo, sem resolução. Como mãe, eu falo por todas as mães que sofrem.”
A ausência de respostas produz um tipo de sofrimento específico. “É um luto sem corpo. Você convive com a possibilidade da morte, mas sem a certeza”, descreve. “É muito doído, muito sofrido.” Além do luto, ela diz que, assim como outras mães, enfrenta um preconceito velado. “Somos pré-julgados o tempo todo. As pessoas esquecem que a dependência química é uma doença que atinge todas as classes sociais.”
Mobilização social
Apesar da angústia, Simone decidiu transformar a dor em ação. Ela articula a criação de um grupo de apoio a mães e mulheres que enfrentam situações semelhantes. A proposta é oferecer acolhimento humanitário, orientação jurídica e apoio psicológico. “Quando uma mãe vai a uma delegacia, ela já chega intimidada. Ela não é criminosa, é vítima”, afirma. O grupo, segundo ela, será formado por voluntários e contará com advogados, psicólogos e assistentes sociais, sem fins políticos ou partidários.
A iniciativa já recebeu apoio de moradores da cidade. Além do apoio direto às famílias, o grupo pretende atuar na prevenção, com palestras em escolas e ações de conscientização. “Tudo começa na educação”, defende Simone. “Se conseguirmos ajudar 10% das pessoas que precisam, já será uma grande ajuda.”
Assim com ela, milhares de mães esperam por uma investigação que não avança e procuram respostas em portas que nem sempre tem a empatia necessária para acolher os familiares. Assim como no seu caso, ela pede que não desistam. “Não parem, procurem seus direitos, as autoridades e a mídia. Nós precisamos ter voz.”
Para o poder público, ela pede que sejam tomadas as medidas cabíveis e que se aprimore a metodologia das investigações. Isso inclui maior clareza sobre o funcionamento dos órgãos responsáveis, horários e procedimentos, pois há muita morosidade nas diligências.
“Não estamos falando de bens materiais, estamos falando de vidas. Vidas não podem esperar”, afirma.






