Operação fecha três clínicas clandestinas em Juatuba e resgata 57 pessoas em situação degradante

0
279

Uma operação policial em Juatuba revelou, nos últimos dias, uma realidade chocante que se aproveita da vulnerabilidade de dependentes químicos. Em menos de quatro dias, três clínicas clandestinas foram interditadas no município. Todas, eram administradas por uma mesma organização criminosa que movimentou cerca de R$ 400 mil nos últimos meses. A ação conjunta da Polícia Civil, Polícia Militar e Vigilância Sanitária resultou no resgate de 57 pessoas, entre elas idosos e adolescentes, que eram mantidas em condições sub-humanas.

A primeira ação ocorreu no sábado (26), quando foram fechados dois estabelecimentos destinados a pacientes masculinos: um no bairro Samambaia, onde estavam 34 homens, e outro no bairro Vila Maria Regina, com 12 internos.

Na segunda-feira (29), uma terceira clínica, localizada também no Samambaia e destinada exclusivamente a mulheres, foi interditada. Lá, 11 mulheres foram resgatadas.

Segundo denúncia de uma funcionária, outra unidade estaria funcionando no bairro Eldorado. Na quinta-feira (2), as equipes deslocaram-se até o imóvel.  No entanto, o local estava vazio no momento da operação.

 A Vigilância Sanitária apreendeu medicamentos, receituários médicos em branco, carimbos e alimentos impróprios para consumo.

Segundo a Polícia Civil, as clínicas operavam sob a fachada de centros de recuperação de dependência química e de tratamento para diferentes enfermidades físicas e mentais. No entanto, o que se constatou foi o oposto. O local funcionava sem supervisão médica e psicológica e, os internos, eram submetidos a cárcere privado, trabalho forçado e até casos de violência sexual.

“Eles captavam pacientes principalmente pelas redes sociais e, ao chegar nas clínicas, as pessoas eram colocadas em condição análoga à escravidão. Acreditavam que estivessem em um ambiente saudável, com acompanhamento médico e psicológico, mas não havia nada disso”, explicou a delegada Gislaine Rios.

As descrições da polícia sobre as condições chocaram os moradores: “os pacientes viviam com colchões sujos, lençóis que não eram trocados, comida com fezes de rato. Caso qualquer um ameaçasse sair do local ou comunicar algo a terceiros, era repreendido com mata-leão, socos e chutes”, detalhou a delegada.

Além da violência física, pacientes relataram abusos sexuais e doping com substâncias controladas. A delegada explicou que os internos eram obrigados a ingerir um coquetel conhecido como “danoninho”, que os deixava dopados por mais de 24 horas. “Em alguns casos, os responsáveis obrigavam as pessoas a ficarem nuas e realizarem tarefas sem roupas”, acrescentou.

O trabalho forçado também fazia parte da rotina. Pacientes eram obrigados a trabalhar em lavouras, muitas vezes sem poder sequer sentar até o fim do dia. Segundo a polícia, foi justamente a movimentação intensa e os gritos que chamaram a atenção de vizinhos. Desconfiados, eles denunciaram à polícia, o que deu início à investigação. A denúncia, segundo a polícia, também foi feita por uma funcionária do estabelecimento.

Para enganar familiares e autoridades, a organização criminosa montava estratégias de maquiagem e só permitia a visitação após 30 dias. “Se os familiares tentassem visitar, eles maquiavam uma sala e deixavam o ambiente arrumado por pouco tempo para simular uma clínica adequada”, explicou a delegada.

A ação policial levou à prisão em flagrante de oito pessoas, incluindo o chefe da organização, um homem de 39 anos sem antecedentes criminais. Eles vão responder por crimes como cárcere privado, maus-tratos, violência sexual, trabalho análogo à escravidão, uso de documentos falsos e associação criminosa.

De acordo com a Polícia Civil, só em 2025 já foram interditadas 12 clínicas clandestinas em Minas Gerais. O grupo preso em Juatuba já havia atuado em outros municípios como Mateus Leme, Contagem, Betim e Ribeirão das Neves. O método era o mesmo: alugar sítios em áreas afastadas, operar por algumas semanas e mudar rapidamente de endereço para dificultar a fiscalização.

Durante coletiva de imprensa, a delegada Gislaine Rios fez um alerta: “É fundamental que as famílias verifiquem se a clínica tem alvará de funcionamento, mantenham contato frequente com os pacientes e façam visitas periódicas, muitas vezes sem aviso. Também contamos com vizinhos para denunciar barulhos, gritos e qualquer indício de trabalho forçado, principalmente em áreas rurais”.

A Promotoria de Justiça de Juatuba já determinou que a Polícia Civil abra inquérito policial. 

Vítimas já retornaram para a casa de familiares e dono da clínica nega maus-tratos

Na última quinta-feira (2), todos os acolhidos já haviam sido entregues às suas famílias ou encaminhados para os municípios de origem. Apenas um dos resgatados era de Juatuba. “Felizmente conseguimos concluir esse trabalho difícil, mas necessário. Hoje, todos já estão com suas famílias ou sob cuidados adequados”, destacou a secretária.

O trabalho, segundo Joelísia, foi orientado por legislações como a Constituição Federal, a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), o Estatuto do Idoso, o Estatuto da Pessoa com Deficiência e a Lei da Reforma Psiquiátrica. “Nosso compromisso foi assegurar dignidade e proteção social. Cada pessoa foi ouvida, e a partir daí fizemos os encaminhamentos necessários para o CAPS, CERSAM ou outros serviços de saúde, além da articulação com familiares e municípios de origem”, explicou.

 Em meio aos esforços para combater a exploração em clínicas irregulares, Joelísia destacou a necessidade de acompanhamento contínuo e integrado: “É fundamental que esses casos sejam acompanhados de perto, para que não se repitam. Não se trata apenas de fechar uma clínica, mas de garantir que a rede socioassistencial e de saúde funcione de forma integrada para proteger essas pessoas”, reforçou.

Proprietário  nega maus-tratos

Após a interdição das clínicas terapêuticas em Juatuba, o proprietário do  grupo Fênix, rede de clínicas terapêuticas, apresentou sua versão dos fatos, negando as denúncias de maus-tratos apontadas durante a fiscalização. Em resposta à nossa reportagem, Jeansley Santana, afirmou que o fechamento foi precipitado e que a instituição já estava em processo de regularização junto à Secretaria de Saúde do município.

Segundo o proprietário, o problema com o alvará de funcionamento ocorreu por um erro de classificação contábil. “Nosso alvará foi feito errado na época, a contadora colocou como albergue. Mas já estávamos com toda a documentação em andamento, procurando a Secretaria de Saúde e aguardando a liberação das outorgas. A demora não veio de nós”, afirmou.

Ele também negou as acusações de maus-tratos, alegando que a equipe seguia protocolos e que as pessoas acolhidas eram acompanhadas com responsabilidade. “Não tinha maus-tratos. Eram idosos, e a gente não podia deixar sair sem comunicar às famílias. Temos imagens das câmeras e estamos tranquilos em relação a isso”, disse.

O dono da clínica ainda sustentou que algumas denúncias seriam fruto de conflitos pessoais e montagens, citando o caso de um ex-funcionário que teria feito acusações por vingança. “Foi tudo armado. Encontraram coisas antigas, de 2022, que nem estavam em uso. Tudo isso foi distorcido”, declarou.

Sobre a estrutura de atendimento, o proprietário afirmou que contava com uma equipe de profissionais atuando no sítio. Segundo ele, uma assistente social trabalhava na sede da associação em Betim e também visitava o local. “Um psicólogo atendia presencialmente de segunda a quarta-feira, enquanto um psiquiatra comparecia apenas uma vez por mês, já que o local não se enquadrava na RDC 51, norma que exige acompanhamento mais intensivo”, explicou. “Um advogado também fazia visitas eventuais para verificar as condições dos internos”, completou.

Segundo ele, não havia trabalhos forçados e a clínica era monitorada. “Tenho as imagens e os relatos das famílias mostrando que o trabalho era transparente. As famílias acompanhavam o dia a dia dos acolhidos e monitoravam os sítios 24 horas”, disse.

Nas redes sociais, o perfil tem divulgado relatos de familiares elogiando a clínica. À nossa reportagem, ele enviou áudios e vídeos de pacientes com depoimentos. “Eu quero agradecer ao Jeansley e toda a equipe por ajudar na recuperação do meu ente querido, e por todo suporte e atenção destinado a família”, comentou uma seguidora na publicação nesta semana.

A história se repete após pouco mais de três anos

Em 2022, Mateus Leme viveu a história que fez parte da semana de Juatuba, quando o Centro de Repouso Sônia Filha, no bairro Central, foi interditado pela Vigilância Sanitária e cerca de 30 idosos que viviam no local foram transferidos para outra instituição ou deixados sobre a responsabilidade de familiares.

Na ocasião, a vigilância sanitária constatou diversas inadequações, dentre elas, a ausência de alvará sanitário e do Corpo de Bombeiros, irregularidades estruturais e no estoque de medicamentos, além da ausência de corpo clínico especializado para o tratamento e acompanhamento de idosos. Os agentes de fiscalização também verificaram que o imóvel apresentava aspectos de insalubridade, falta de segurança e acessibilidade.

Números impressionantes

Apenas nos seis primeiros meses de 2022, cinco clínicas clandestinas para tratamento de dependentes químicos foram fechadas pela Polícia Civil em Mateus Leme. De acordo com as investigações, os donos cobravam entre R$1 mil a R$1.900 dos familiares dos internos, que tinham ainda que fornecer medicamentos e cestas básicas e mesmo assim, de acordo com a polícia, os pacientes passavam fome e alguns era até castigados.

Na época, a operação foi deflagrada após denúncia da ausência de alvará de funcionamento da Prefeitura, do Corpo de Bombeiros e da Vigilância Sanitária e, segundo as investigações, cerca de 42 pessoas entre homens, mulheres e adolescentes estavam internadas e muitos estavam no local contra a própria vontade. Os pacientes foram resgatados e os depoimentos dos internos foram reunidos no inquérito policial. Alguns relatos, afirmavam que os medicamentos eram diluídos em água e alguns internos estavam sofrendo maus tratos e violência física de alguns funcionários, “sendo inclusive amarrados na cama”. Os policiais encontraram amarras e vários internos apresentavam escoriações nos pulsos e braços.

Os internos também relataram que na clínica havia o “QO”, o quarto oculto, que era utilizado para colocar as pessoas de castigo, amarradas ou dopadas e que também havia punição de lavar vasilhas até meia noite. Eles contaram ainda que ficavam trancados o tempo todo, “que não havia bebedouro no local e, muitas vezes não havia água e nem energia elétrica”.