Ramal Ferroviário na divisa de Itaúna com Mateus Leme promete tirar cinco mil carretas das rodovias da região

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Um projeto bilionário promete mudar a logística do minério no Brasil e já tem ponto de partida definido: Itaúna. O “Ramal Ferroviário Serra Azul”, idealizado pela Cedro Participações, será construído para interligar Minas Gerais ao Porto de Itaguaí, no Rio de Janeiro, garantindo um escoamento mais eficiente da produção mineral. 

De acordo com a empresa, serão investidos R$ 1,5 bilhão na construção da linha férrea, com previsão de início das obras em 2027 e início da operação para 2030. O traçado inicial passará por Itaúna e seguirá em direção à Região Metropolitana de Belo Horizonte, conectando-se à malha da MRS Logística. Essa nova ferrovia, considerada uma shortline por se tratar de um trecho relativamente curto, reduzirá em até 400 quilômetros o trajeto atual até o litoral do Rio. O objetivo é agilizar a exportação e, ao mesmo tempo, aliviar as estradas. 

A expectativa é ambiciosa: retirar mais de cinco mil carretas das principais rodovias da região e da BR-381, uma das mais movimentadas do país. A via, que liga Minas a São Paulo, recebe cerca de 250 mil veículos diariamente e é conhecida pelo alto índice de acidentes. Segundo dados da Polícia Rodoviária Federal, mais de 7 mil ocorrências foram registradas no trecho nos últimos três anos, sendo 440 fatais. Para Itaúna, além da diminuição do tráfego pesado, o projeto pode representar benefícios logísticos e econômicos, aproximando o município de uma rota estratégica para o transporte ferroviário nacional. 

Outro ponto destacado pela Cedro é a contribuição para o meio ambiente. Conforme o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases, o transporte ferroviário emite até 88% menos CO₂ por tonelada transportada do que o modal rodoviário.  

“A retirada de milhares de carretas por dia da Fernão Dias será um marco não só para a logística, mas também para a mobilidade e para a preservação ambiental”, afirmou Lucas Kallas, presidente do conselho da Cedro Participações. A empresa também ressalta que o projeto está alinhado às práticas sustentáveis do setor, incluindo tecnologias para reduzir impactos ambientais, como o beneficiamento de rejeitos sem barragens. 

A ferrovia já obteve um Decreto de Utilidade Pública da Agência Nacional de Transportes Terrestres, o que autoriza os levantamentos necessários para desapropriação e indenização das áreas afetadas. Junto à ferrovia, mineradoras pretendem construir um mineroduto para escoar o aumento na produção de minério de ferro a partir de Itatiaiuçu, ampliando ainda mais a capacidade logística da região e reforçando o caráter estratégico do empreendimento. 

Atualmente, cerca de 65% das cargas no Brasil são transportadas por rodovias, segundo a Confederação Nacional do Transporte. A nova ferrovia busca reverter parte dessa dependência, oferecendo uma opção mais segura, eficiente e menos poluente para o escoamento mineral. Com Itaúna como ponto estratégico para o início do modal, a cidade passa a integrar uma rota que pode redefinir a dinâmica do transporte no país, ao mesmo tempo em que enfrenta debates sobre impactos sociais e ambientais que devem ganhar força nos próximos meses. 

Deputadas dizem que construção de ramal ferroviário é tragédia anunciada na RMBH 

O que começou como um projeto para escoar minério entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro está gerando forte preocupação em municípios da Região Metropolitana e também em cidades vizinhas, como Itaúna. Uma visita técnica realizada pela Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais expôs os riscos socioambientais da construção do Ramal Ferroviário Serra Azul, planejado para transportar cerca de 25 milhões de toneladas anuais de minério de ferro pelo Porto de Itaguaí. 

Com aproximadamente 32 quilômetros de extensão, a ferrovia passará por áreas de Igarapé, São Joaquim de Bicas, Mateus Leme e Itaúna, interligando-se à malha da MRS Logística. Durante a visita, a comissão percorreu áreas que podem ser diretamente impactadas. Entre elas, córregos que alimentam o Sistema Serra Azul, responsável pelo abastecimento de água da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Segundo técnicos e moradores, o traçado planejado ameaça pelo menos 78 cursos d’água, além de unidades de conservação e propriedades rurais. Pequenos produtores temem perder suas terras e meios de subsistência. 

A preocupação não é apenas com a segurança hídrica. O ramal cortaria condomínios, bairros residenciais, áreas religiosas e até equipamentos de saúde, como o Hospital 272 Joias, construído com recursos da reparação pelo desastre de Brumadinho. Em um dos pontos visitados, a ferrovia passaria sobre a Tenda de Maria, capela erguida há três décadas no bairro Ouro Verde, em Igarapé, onde funciona o Centro de Vida Madre Clarice, espaço voltado a terapias naturais e integrativas. 

Ao longo do percurso, moradores relataram situações que reforçam a sensação de insegurança: sobrevoo de drones, invasão de propriedades para levantamento topográfico e até o envenenamento de árvores. Apesar disso, prefeituras afirmam não ter recebido informações detalhadas sobre o traçado definitivo da linha férrea. 

A geóloga Daniela Cordeiro alertou para impactos graves caso a obra avance. “Para se construir uma ferrovia, são necessários cortes e aterros. Isso pode significar o fim de cursos d’água como o Córrego do Mosquito, de água limpa e cristalina, com risco de desabastecimento do Sistema Serra Azul”, explicou. 

A estimativa é de que 5 mil famílias possam ser atingidas somente em Igarapé. As consequências se estendem a áreas que hoje funcionam como refúgio para moradores, como os condomínios Vale da Serra e Morada da Serra, onde o traçado passaria sobre áreas de lazer e praças. 

A deputada Lohanna França (PV) reforçou que a luta não se restringe ao traçado, mas ao direito de participação das comunidades. “Essa ferrovia vai impactar quatro municípios, a reserva hídrica da RMBH e até comunidades tradicionais. Isso não pode ser ignorado. A ANTT não ouviu as populações antes de declarar a obra de utilidade pública. Essa decisão precisa ser revista, porque as pessoas estão lutando pelo básico: suas casas, sua água, sua vida”, destacou. 

Para a deputada Beatriz Cerqueira (PT), os riscos são evidentes. “Essa ferrovia representa a destruição de nascentes, modos de vida e comunidades inteiras, até mesmo de uma aldeia indígena. Estamos diante de um traçado insustentável, que ameaça a segurança hídrica da capital e invade territórios sem diálogo com a população. Isso precisa ser denunciado e barrado”, afirmou. 

Aldeia indígena promete resistência 

O roteiro da visita terminou na Aldeia Pataxó Naô Xohã, em São Joaquim de Bicas, onde vivem cerca de 80 indígenas às margens do Rio Paraopeba. O cacique Sucupira ressaltou que, além da ferrovia principal já existente, um novo ramal significaria mais pressão sobre o território e sobre duas nascentes que ainda resistem. “Cada árvore, cada rio é sagrado. Nós vamos resistir. Não aceitaremos a destruição da nossa terra”, disse. 

O relatório da visita foi encaminhado ao Ministério Público e à própria ANTT. A Comissão de Meio Ambiente também planeja novas diligências em outras áreas afetadas e cobrança junto à Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Semad), já que o processo de licenciamento ainda não foi iniciado.