Aos 87 anos, Victor de Almeida é um dos nomes mais ilustres da cultura de Mateus Leme. Nascido em Belo Horizonte, ele carrega nas lembranças a trajetória de quem viveu — e ajudou a construir — parte importante da história do cinema em Minas Gerais. Apaixonado pela sétima arte desde a infância, ele transformou essa paixão em missão: difundir a cultura cinematográfica, formar público e preservar a memória audiovisual mineira. Seu percurso atravessa décadas, regimes políticos e gerações, e culmina na criação da Casa de Cultura Cássia Afonso de Almeida, em Mateus Leme.
O primeiro contato de Victor com o cinema foi ainda menino, levado pelo pai para assistir aos noticiários sobre a guerra na Europa. Mas foi “O Tesouro da Sierra Madre”, clássico de 1946 dirigido por John Huston e estrelado por Humphrey Bogart, que despertou no garoto o encantamento duradouro pela magia do cinema. “Até hoje um grande filme”, destaca.
Na adolescência, ele era presença constante nas sessões do antigo Cine Metrópole, onde se exibiam produções da Metro, e nas salas do Cine Tamoio, com os filmes em cinemascope da Fox. “O desafio, nessa época, era enganar os porteiros e conseguir ver os filmes impróprios para menores de 18 anos, como os apresentados num festival anual de avançados filmes franceses no cinema Royal”, lembra.
Mas o olhar de espectador logo deu lugar ao olhar crítico. Um professor do colégio, Amaro Xisto de Queiroz, despertou em Victor o interesse pela História. Outro colega o levou a um clube de cinema dirigido por um frade dominicano — e ali ele percebeu que existia “um outro cinema”, capaz de provocar reflexão, debater política e transformar consciências.
Um novo foco
Foi em 1958, aos 20 anos, que Victor encontrou o espaço que mudaria seu destino: o Centro de Estudos Cinematográficos de Minas Gerais (CEC). O grupo, que ele frequenta até hoje, se reunia em uma modesta sala no alto do antigo Cine Art-Palácio, em Belo Horizonte. “Era um ambiente efervescente, onde a gente convivia com escritores, artistas plásticos, jornalistas e músicos”, recorda.
O CEC abriu para Victor as portas do jornalismo e da crítica de cinema, além de inspirá-lo a cursar Sociologia e Política na UFMG e a ingressar na militância partidária, então no PCB. O golpe militar de 1964 interrompeu esse ciclo.
Ao lado de um amigo, também afastado da vida política, fundou uma empresa de jornalismo que prestava serviços para grandes companhias. “De certa forma, fomos beneficiários do “milagre econômico”, enquanto nos subterrâneos a tortura “comia solta” e amigos morriam de depressão ou em embates contra a ditadura”, recorda.
Victor acreditava na resistência cultural. “A arma do combate político era a cultura”, diz. Inspirado pelos movimentos que floresciam no país — o Teatro Oficina, a Bossa Nova, o Tropicalismo, o Cinema Novo —, participou da organização de um festival de cinema em Belo Horizonte. “Fizemos, semanas antes do AI-5, um festival de cinema que rendeu a primeira política pública do Estado mineiro em benefício do cinema”, comemora.
O grupo de Victor foi contemplado com recursos do novo fundo de incentivo, e o resultado foi o filme “O Homem do Corpo Fechado”, escrito e dirigido por Schubert Magalhães, com trilha de Tavinho Moura. Era o auge do Cinema Novo e o início de uma geração que abriria caminho para cineastas mineiros.
Anos depois, Victor atuaria como publicista da Embrafilme, empresa estatal criada para fortalecer a produção nacional. Em Belo Horizonte, foi responsável por lançar filmes produzidos pela companhia, incluindo obras de diretores locais. Em 1975, o governo militar instituiu a Lei do Curta, que obrigava a exibição de produções brasileiras antes dos longas estrangeiros. “Com os nossos curtas, vários premiados no Brasil e no exterior, logramos criar um convênio entre a Embrafilme e o governo do Estado para a produção de filmes de longa-metragem”, conta Victor.
Ao longo da carreira, Victor dirigiu e produziu diversos curtas, entre eles “Veredas Mortas”, premiado no Festival de Brasília de 1976. Participou também do longa, “O Grande Mentecapto”, dirigido por Osvaldo Caldeira, lançado em 1987. Depois disso, dedicou-se mais intensamente ao jornalismo e à gestão cultural.
Em 2005, movido pela dor da perda da filha, criou em Mateus Leme a Casa de Cultura Cássia Afonso de Almeida, batizada em sua homenagem. O espaço nasceu como um projeto do Instituto Humberto Mauro, entidade dedicada à preservação da memória audiovisual de Minas, da qual Victor é diretor. “Com a adesão de alguns cidadãos mateus-lemenses, criamos uma associação que assumiu o projeto, passando a administrá-lo de forma autônoma e independente”, revela.
Hoje, a instituição mantém duas mostras cinematográficas: Clube do Filme, aos sábados, voltados para adultos e, Cinemin, no domingo, para crianças. Paralelamente, Victor segue atuando no Instituto Humberto Mauro, que colabora com o CEC em projetos de preservação e pesquisa. Um dos mais recentes é o site Hemeroteca do Cinema Mineiro (www.hemerotecacinema.org), que reúne mais de 13 mil recortes de jornais digitalizados sobre a história cinematográfica do estado.
Apesar de décadas de trabalho, Victor reconhece que o desafio cultural ainda é imenso. “A cena cultural em Mateus Leme, como em grande parte do interior do Brasil, é pobre”, lamenta. “A arte e a cultura ainda não fazem parte das necessidades da maioria das pessoas, e isso as torna presas fáceis da colonização cultural nacional e estrangeira.”
Para ele, o papel da Casa de Cultura é resistir a essa apatia e reafirmar o que o poeta Ferreira Gullar escreveu: “a arte é necessária quando a vida não basta”.






