Operação fecha três clínicas clandestinas em Juatuba e resgata 60 pessoas em situação degradante

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Uma operação policial em Juatuba revelou, nos últimos dias, uma realidade chocante que se aproveita da vulnerabilidade de dependentes químicos. Em menos de quatro dias, três clínicas clandestinas foram interditadas no município. Todas, eram administradas por uma mesma organização criminosa que movimentou cerca de R$ 400 mil nos últimos meses. A ação conjunta da Polícia Civil, Polícia Militar e Vigilância Sanitária resultou no resgate de 60 pessoas, entre elas idosos e adolescentes, que eram mantidas em condições sub-humanas.

A primeira fase da operação aconteceu no final de semana passado, quando duas unidades localizadas no bairro Residencial Samambaia e na Vila Maria Regina foram fechadas. Já esta semana, uma terceira clínica foi interditada, desta vez destinada apenas a mulheres. No local, 12 pacientes estavam abrigadas sem qualquer respaldo médico, vivendo em um espaço sem alvará de funcionamento, sem higiene e em ambiente marcado por violência. A Vigilância Sanitária apreendeu medicamentos, receituários médicos em branco, carimbos e alimentos impróprios para consumo.

Segundo a Polícia Civil, as clínicas operavam sob a fachada de centros de recuperação de dependência química e de tratamento para diferentes enfermidades físicas e mentais. No entanto, o que se constatou foi o oposto. O local funcionava sem supervisão médica e psicológica e, os internos, eram submetidos a  cárcere privado, trabalho forçado e até casos de violência sexual.

“Eles captavam pacientes principalmente pelas redes sociais e, ao chegar nas clínicas, as pessoas eram colocadas em condição análoga à escravidão. Acreditavam que estivessem em um ambiente saudável, com acompanhamento médico e psicológico, mas não havia nada disso”, explicou a delegada Gislaine Rios.

As descrições da polícia sobre as condições chocaram os moradores: “os pacientes viviam com colchões sujos, lençóis que não eram trocados, comida com fezes de rato. Caso qualquer um ameaçasse sair do local ou comunicar algo a terceiros, era repreendido com mata-leão, socos e chutes”, detalhou a delegada.

Além da violência física, pacientes relataram abusos sexuais e doping com substâncias controladas. A delegada explicou que os internos eram obrigados a ingerir um coquetel conhecido como “danoninho”, que os deixava dopados por mais de 24 horas. “Em alguns casos, os responsáveis obrigavam as pessoas a ficarem nuas e realizarem tarefas sem roupas”, acrescentou.

O trabalho forçado também fazia parte da rotina. Pacientes eram obrigados a trabalhar em lavouras, muitas vezes sem poder sequer sentar até o fim do dia. Segundo a polícia, foi justamente a movimentação intensa e os gritos que chamaram a atenção de vizinhos. Desconfiados, eles denunciaram à polícia, o que deu início à investigação.

Para enganar familiares e autoridades, a organização criminosa montava estratégias de maquiagem e só permitia a visitação após 30 dias. “Se os familiares tentassem visitar, eles maquiavam uma sala e deixavam o ambiente arrumado por pouco tempo para simular uma clínica adequada”, explicou a delegada.

A ação policial levou à prisão em flagrante de oito pessoas, incluindo o chefe da organização, um homem de 39 anos sem antecedentes criminais. Eles vão responder por crimes como cárcere privado, maus-tratos, violência sexual, trabalho análogo à escravidão, uso de documentos falsos e associação criminosa.

De acordo com a Polícia Civil, só em 2025 já foram interditadas 12 clínicas clandestinas em Minas Gerais. O grupo preso em Juatuba já havia atuado em outros municípios como Mateus Leme, Contagem, Betim e Ribeirão das Neves. O método era o mesmo: alugar sítios em áreas afastadas, operar por algumas semanas e mudar rapidamente de endereço para dificultar a fiscalização.

Parte dos pacientes resgatados foi levada para abrigos provisórios mantidos pela prefeitura de Juatuba. Outros foram encaminhados a familiares após atendimento inicial.

Durante coletiva de imprensa, a delegada Gislaine Rios fez um alerta: “É fundamental que as famílias verifiquem se a clínica tem alvará de funcionamento, mantenham contato frequente com os pacientes e façam visitas periódicas, muitas vezes sem aviso. Também contamos com vizinhos para denunciar barulhos, gritos e qualquer indício de trabalho forçado, principalmente em áreas rurais”.

A Promotoria de Justiça de Juatuba já determinou que a Polícia Civil abra inquérito policial. 

A história se repete após pouco mais de três anos

Em 2022, Mateus Leme viveu a história que fez parte da semana de Juatuba, quando o Centro de Repouso Sônia Filha, no bairro Central, foi interditado pela Vigilância Sanitária e cerca de 30 idosos que viviam no local foram transferidos para outra instituição ou deixados sobre a responsabilidade de familiares.

Na ocasião, a vigilância sanitária constatou diversas inadequações, dentre elas, a ausência de alvará sanitário e do Corpo de Bombeiros, irregularidades estruturais e no estoque de medicamentos, além da ausência de corpo clínico especializado para o tratamento e acompanhamento de idosos. Os agentes de fiscalização também verificaram que o imóvel apresentava aspectos de insalubridade, falta de segurança e acessibilidade.

Números impressionantes

Apenas nos seis primeiros meses de 2022, cinco clínicas clandestinas para tratamento de dependentes químicos foram fechadas pela Polícia Civil em Mateus Leme. De acordo com as investigações, os donos cobravam entre R$1 mil a R$1.900 dos familiares dos internos, que tinham ainda que fornecer medicamentos e cestas básicas e mesmo assim, de acordo com a polícia, os pacientes passavam fome e alguns era até castigados.

Na época, a operação foi deflagrada após denúncia da ausência de alvará de funcionamento da Prefeitura, do Corpo de Bombeiros e da Vigilância Sanitária e, segundo as investigações, cerca de 42 pessoas entre homens, mulheres e adolescentes estavam internadas e muitos estavam no local contra a própria vontade. Os pacientes foram resgatados e os depoimentos dos internos foram reunidos no inquérito policial. Alguns relatos, afirmavam que os medicamentos eram diluídos em água e alguns internos estavam sofrendo maus tratos e violência física de alguns funcionários, “sendo inclusive amarrados na cama”. Os policiais encontraram amarras e vários internos apresentavam escoriações nos pulsos e braços.

Os internos também relataram que na clínica havia o “QO”, o quarto oculto, que era utilizado para colocar as pessoas de castigo, amarradas ou dopadas e que também havia punição de lavar vasilhas até meia noite. Eles contaram ainda que ficavam trancados o tempo todo, “que não havia bebedouro no local e, muitas vezes não havia água e nem energia elétrica”.