Desafio do saneamento básico: 3,5 milhões de mineiros sem água tratada

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O seminário “Saneamento em Foco”, promovido pelo jornal O TEMPO em parceria com a Copasa, reuniu autoridades, especialistas e representantes do setor para debater metas e desafios do saneamento básico no Brasil e em Minas Gerais. O evento foi realizado na quinta-feira (9), no auditório da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte, com a proposta de discutir estratégias para alcançar a universalização dos serviços de água e esgoto prevista no Marco Legal do Saneamento.

O debate trouxe dados que mostram a dimensão do desafio. Mesmo sendo um direito constitucional, cerca de 38,5 milhões de brasileiros ainda vivem sem acesso à água tratada e aproximadamente 95,3 milhões não têm coleta de esgoto. Em Minas Gerais, a situação também preocupa: são cerca de 3,5 milhões de pessoas sem água tratada e 5,1 milhões sem serviços de esgotamento sanitário, segundo dados do IBGE e do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa). O Marco Legal estabelece que esses serviços devem ser universalizados até 2033, com prazo máximo de prorrogação até 2040.

A editora executiva de O TEMPO, Renata Nunes, explicou que o evento criou um espaço para troca de ideias e construção de soluções. A presidente do jornal, Marina Medioli, ressaltou que o debate amplia a discussão pública e aproxima especialistas da população.

No primeiro painel, a presidente da Copasa, Marília Carvalho de Melo, apresentou os planos da companhia para o novo ciclo do saneamento, destacando metas desafiadoras e oportunidades de modernização. Em seguida, a CEO do Instituto Trata Brasil, Luana Siewert Pretto, trouxe dados inéditos sobre os benefícios econômicos da expansão do saneamento em Minas Gerais.

Outro painel discutiu qualidade, regulação e práticas ESG, com representantes da ONU, da Arsae-MG e da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária Ambiental. Eles defenderam a comunicação e a participação social para cobrar melhorias.

O evento também abordou a iniciativa privada: investimentos bateram recorde (R$ 29,12 bilhões em 2024), mas ainda são necessários R$ 900 bilhões até 2033. O número de municípios com participação privada saltou de 291 (2019) para 1.820 (2025). Especialistas pediram regulação clara e segurança jurídica.

RETRANCA

Quase metade de Mateus Leme sem água e 22% da população de Juatuba sem abastecimento

Dados do levantamento nacional do Instituto Trata Brasil, com base no SNIS/SINISA e DATASUS de 2024, mostram que a realidade é preocupante em cidades da região, como Juatuba e Mateus Leme. Os números revelam que milhares de moradores ainda não têm acesso à água tratada e à coleta de esgoto.

Em Juatuba, com população de 32.726 habitantes, segundo IBGE 2024, e área de 97 km², cerca de 7.245 pessoas vivem sem acesso à água tratada. Isso representa 22,1% da população. Já em relação à coleta de esgoto, o problema é ainda maior: 22.267 moradores não contam com o serviço, e o índice aponta que 69,4% da população não possui coleta adequada.

Em Mateus Leme, os números são ainda mais preocupantes em alguns aspectos. Dados do IBGE 2024 registram que o município tem população estimada em 40.239 habitantes e área territorial maior, com 301 km². Segundo o levantamento, 18.575 pessoas não têm acesso à água tratada, o que corresponde a 46,2% da população. O número é mais que o dobro do percentual registrado em Juatuba.

Em relação à coleta de esgoto, 27.273 moradores de Mateus Leme não contam com o serviço, o que representa 67,8% da população.

Outro ponto que chama atenção é o impacto na saúde. No mesmo período, Juatuba registrou 13 internações por doenças causadas por água contaminada. Já Mateus Leme, houve 50 internações por doenças relacionadas à falta de saneamento em 2024, número quase quatro vezes maior que o de Juatuba. Ainda de acordo com os dados, em ambas as cidades não houve óbitos.

Juatuba investiu o dobro, mas trata menos esgoto que Mateus Leme

Outro fato que chama a atenção é o valor de investimento das duas cidades em relação ao que conseguiram entregar à população. Dados oficiais do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SNIS/SINISA) e do ITB referentes a 2024, Mateus Leme conseguiu tratar quatro vezes mais esgoto investindo aproximadamente metade do valor aplicado por Juatuba.

Enquanto Juatuba investiu R$ 18,2 milhões no ano passado, Mateus Leme aplicou R$ 9,8 milhões, ou seja, Juatuba gastou R$ 8,4 milhões a mais.

Apesar do maior investimento, Juatuba tratou 217,73 mil m³ de esgoto, o que representa 11,4% do volume de água consumido no município.

Já Mateus Leme, com menos recursos, tratou 801,26 mil m³ de esgoto, alcançando um índice de 45,3%, o que equivale quatro vezes mais que o índice de Juatuba.

O dado fica ainda mais evidente quando se analisa o investimento per capita, ou seja, investimento por pessoa. Juatuba gastou R$ 556,12 por habitante, enquanto Mateus Leme gastou R$ 243,19 por pessoa. Ou seja, Juatuba investiu mais que o dobro por pessoa, mas obteve resultado muito inferior em tratamento de esgoto.