O contador de histórias de Azurita: a jornada literária de Gilson Raimundo

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Entre as paisagens rurais de Azurita, um menino descalço escutava histórias de assombração contadas durante a lida na roça, sem saber que aquelas narrativas plantavam as sementes de uma paixão que floresceria décadas depois: a escrita. Esse menino é Gilson Raimundo, escritor mateus-lemense, organizador de coletâneas e uma das vozes que vêm fortalecendo o gênero de terror e suspense nacional.

Nascido em Itaúna e criado no Bom Jardim, no distrito de Azurita, Gilson tem 53 anos e carrega com orgulho o peso da história familiar. “Minha família está nessas terras desde 1700”, conta. “Cresci ouvindo histórias sobre meus antepassados e sobre como chegaram aqui de carro de boi, vindos de Desterro de Entre Rios. Essas memórias sempre me fascinaram.”

Filho de Raimundo Brasilino, ferroviário e carpinteiro conhecido em toda a região, e de Maria Rosa, a dona “Cotó”, servente escolar, Gilson cresceu em meio a uma rotina simples, mas rica em valores e imaginação. “Minha mãe sonhava em ser professora, e de certa forma realizou esse sonho por meio das minhas irmãs, que seguiram carreira na Educação”, lembra.

A convivência com os pais e os seis irmãos moldou não só o homem, mas o escritor que aprendeu a observar o cotidiano e transformá-lo em enredo. Da infância, ele guarda lembranças que misturam o trabalho na roça, as brincadeiras descalças e o fascínio pelas histórias contadas pelos mais velhos. “Ouvíamos muitos causos à noite, histórias de assombração e de gente que se dava bem no fim, mesmo depois de enfrentar o medo. Aquilo me marcava profundamente”, conta.

Foi também nessa época que Gilson teve contato com a televisão, um luxo raro para famílias do interior nos anos 1980. “Ela trouxe muitas histórias a começar pelo Sítio do Pica-pau Amarelo, Ultraman e o seriado Além da Imaginação que criaram uma mística reverberando até hoje em minhas criações”, relembra.

A família de artistas

Hoje, ele ainda vive no Bom Jardim, cercado pela família que também o acompanha em suas aventuras literárias. A esposa Valéria é sua parceira constante, e os filhos Guinnevyer e Richard participam ativamente das divulgações e performances que animam o universo criativo do autor. “A Guinnevyer é maquiadora artística e cosplay, vive me ajudando a dar vida aos personagens dos meus contos. O Richard, por outro lado, ajuda nas divulgações, faz dramatização artística e interpretação teatral de alguns contos, além de ter sido por ele que dei o primeiro passo nesta aventura. E a Valéria, nos acompanha em nossas aventuras literárias ou no universo nerd”, destaca.

Apesar de ser técnico em mecânica industrial formado pelo SENAI, o gosto pela literatura o acompanha desde cedo. Ainda criança fazia redações para colegas e se arriscava nos primeiros versos, mas foi apenas mais tarde, ao descobrir o site Recanto das Letras, que ele começou a escrever com mais frequência. “Comecei postando fábulas e histórias que contava para meus filhos. Depois descobri um grupo de pessoas escrevendo histórias de terror e um desafio literário de fim de ano – o DTRL (Desafio do Terror Recanto das Letras), que era um concurso organizado voluntariamente por autores amadores. Participei de várias edições com eles, venci uma etapa com meu conto ‘Mais Que Desgraça Pelada’ e alcancei outras boas colocações.”

No universo literário

A partir dessa experiência, a trajetória literária de Gilson começou a tomar forma — primeiro organizando concursos. “Junto com outros três autores, decidimos dar continuidade aos desafios no site e criamos o Concurso Literário de Terror e Suspense – CLTS, com quatro etapas anuais. Neste mês de setembro, finalizamos nossa trigésima segunda edição”, relata. Depois como organizador de coletâneas: “A partir do CLTS, organizamos três antologias com os melhores contos dos primeiros anos, selecionados pelos próprios participantes: ‘Contos Arrepiantes – Ano Um’, ‘Contos Arrepiantes – Volume 02’ e ‘Contos Arrepiantes – volume 03’”, revela.

E, finalmente, como autor publicado. Entre suas obras e participações em antologias, destacam-se Contos Arrepiantes (em três volumes), O Medo que Surge com a Noite e Tudo é Relativamente Compreensível, seu livro solo, lançado em 2025 pela Verlidelas Editora.

Mesmo com uma carreira consolidada, Gilson se mantém fiel à essência simples de suas origens, concilia o trabalho na mecânica industrial com a escrita, e confessa que encontra inspiração nas pessoas ao seu redor. “Cada pessoa tem uma história diferente, algumas tem forte influência nos trejeitos dos personagens que crio”, revela.

Além da literatura, ele tem paixão por animes e cultura pop. “Gosto de Demon Slayer, Nanatsu no Taizai, Ataque de Titãs. Esses animes trazem o terror disfarçado de aventura, e isso me inspira muito. Acredito que não existe idade para curtir boas histórias.”

Influenciado por autores como Raphael Montes, um dos maiores expoentes da literatura de terror no Brasil, ele vislumbra a expansão do mercado brasileiro. “Gostaria de ver mais leitores dando oportunidade às obras nacionais, valorizando nossas produções e, claro, um dia ter meu nome citado ao lado desses grandes desbravadores literários”, afirma.