Liminar garante atendimento domiciliar a pai de atleta tricampeã mineira para tratamento do pai

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A história de Guilherme Fernandes, de 53 anos, poderia ser apenas mais uma entre tantas famílias que enfrentam dificuldades dentro do sistema de saúde. Mas, no caso dele, a luta ganhou um peso ainda maior: além de ser pai da tricampeã mineira de taekwondo, Aisha Felícia, ele se tornou totalmente dependente de cuidados após sofrer um AVC grave.

O episódio aconteceu em julho do ano passado e mudou completamente a rotina da família. Para salvar sua vida, Guilherme precisou passar por uma craniectomia, cirurgia delicada em que parte do crânio é retirada para aliviar a pressão no cérebro. Desde então, ele perdeu a fala, os movimentos do lado direito do corpo, ficou tetraplégico e passou a ter convulsões frequentes.

Sem conseguir andar, se comunicar ou realizar qualquer atividade sozinho, ele voltou para casa precisando de uma estrutura de tratamento contínuo e multidisciplinar, com fisioterapia, fonoaudiologia e outros acompanhamentos essenciais.

Alta hospitalar sem estrutura para continuar o tratamento

De acordo com a advogada Priscila Baruffi, responsável pelo caso, Guilherme recebeu alta em agosto, com diversas recomendações médicas que deveriam ser cumpridas mesmo em casa. “Ele é um paciente acamado, 100% dependente de cuidados. O médico indicou acompanhamento multidisciplinar e aparelhos para recuperação”, explica.

O problema é que, segundo a defesa, os atendimentos não chegaram de forma regular. “Nem fisioterapia ele estava tendo. A família, humilde, teve que pagar particular e fazer escolhas dolorosas sobre qual profissional investir”, afirma Priscila.

Ela relata que Guilherme chegou a receber apenas algumas sessões esporádicas, insuficientes para evolução. “O médico alertou que, se ele não tivesse acompanhamento, iria regredir. Elas ficaram apavoradas”, diz.

Bianca conta que, mesmo sem suporte adequado, Guilherme conseguiu evoluir graças a esforços da própria família. “O Gui evoluiu muito, não pelo suporte médico e terapêutico do município. Ele tinha uma disfagia grave, não sabia nem engolir. Mas consegui ensinar ele a engolir novamente, cuspir, tudo sem auxílio”, relata.

Ela lembra que precisou insistir por atendimento médico e, em uma das crises, acabou chamando o Samu. Foi nesse momento que conheceu profissionais particulares que mudaram o quadro do marido. “O cardiologista ajustou as medicações e tudo começou a melhorar. Depois conheci um fisioterapeuta que mudou a realidade do Gui”, diz.

Segundo Bianca, a família levantou recursos para pagar cinco sessões particulares de fisioterapia por semana. Com as sessões, Guilherme ganhou força, massa muscular e esperança. Mas quando o dinheiro faltou, ele piorou. “Ele recaiu na depressão, aumentou as dores, piorou a confusão mental”, conta.

Bianca afirma que a assistência oferecida pelo município foi limitada. “A fisioterapeuta veio dias depois da alta, tirou medidas da cadeira de rodas, mas até hoje não foi entregue”, diz.

Segundo ela, as sessões de fisioterapia chegaram a acontecer, mas em número reduzido.

“Se foram seis, foram muitas”, afirma. Ela relata também dificuldades para conseguir visitas médicas em casa. “A resposta eram sempre que tem muito acamado no bairro. Toda vez que solicitei, dias depois agravou e tive que chamar o Samu”, conta.

A decisão de ir à Justiça

Sem alternativa, a família decidiu buscar seus direitos. “Ele não tinha condições de se deslocar até o postinho, teria que ser tudo domiciliar”, explica a advogada.

A ação foi movida contra o município e o Estado, pedindo o fornecimento de todos os profissionais indicados. A Justiça concedeu uma liminar determinando que os atendimentos sejam realizados, sob pena de multa. “O juiz estipulou multa de R$ 2 mil por descumprimento, até o limite de R$ 60 mil”, informa Priscila.

Ela alerta que o tempo é decisivo. “Quanto mais o tempo passa, maior a chance de o tratamento não ser tão eficaz”, afirma.

O que diz a Prefeitura

Segundo a assessoria da prefeitura de Juatuba, o paciente recebeu assistência do município. A administração afirma que as exigências determinadas na liminar estariam “muito acima do que qualquer município da região consegue oferecer”, mas que sempre prestou atendimento “dentro das possibilidades orçamentárias”. A Prefeitura informou ainda que irá recorrer da decisão judicial.